Os pássaros, que há pouco estavam agitados, calam-se. Nuvens carregadas, vento. Chove forte. A paisagem é cinza. Frio. Há uma certa incerteza no ar, não temos como saber quando vai acabar nossa reclusão. Estar exposto à água fria, ao ar gelado que percorre todo o vale não parece ser uma boa idéia. Temos que nos prevenir, cuidar da saúde, autopreervação.

Raios cortam os céus, em espetáculo belo e aterrorizador. Como se quisesse dizer sobre a nossa pequenez. Trovões vão ficando cada vez mais fortes, ocorrendo em espaços cada vez menores entre um relampejo  e outro.

Vem a tormenta. O barulho das águas sobre o telhado é maior, agora. A intensidade aumenta. Os galhos das árvores balançam nervosamente, em movimentos tortuosos e quase sofridos. Escurece.

Mas, subitamente, o barulho da água vai diminuindo. A claridade começa a voltar. As árvores acalmam-se, pois já não precisam resistir ao vento. Rapidamente, tudo se transforma. O canto dos pássaros recomeça. Timidamente. Os trovões parecem vir distantes, como despedindo-se de uma visita. Como se fosse um lenço branco sendo acenado ao longe.

O sol volta a brilhar intensamente. O solo molhado é a única lembrança da tormenta que passou. O ar está mais limpo, varrido pelas rajadas rápidas, primas-irmãs da suave brisa que faz dançar os trigais em volta da casa.

O solo está preparado. As sementes haviam sido plantadas. Com as dificuldades, adubou-se a plantação. Logo a colheita virá, pois a água necessária chegou. Depois da tempestade, volta a calmaria. E depois desta, a felicidade. E, então, é tempo de preparar o solo novamente. Esse é o ciclo da vida. Pense nisso. Até a próxima semana.

Rodolfo Nakamura

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